quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

COM OS OLHOS ENVOLTOS EM GAZE

Você vê as peças do dominó de carne jogadas na mesa da última ceia,
despencando do desbocado desfiladeiro,
do alto da visão aterrorizante da princesa Eco a se soterrar?
Condenados sem olhos em Gaza, o brilho falso do cobre cobre os mudos olhos envoltos em gaze na travessa da verdade em estado crítico,alterado e insípido.
Aos cães da guerra iguaria canibal sem igual os olhos de Santa Luzia,iludidos,úmidos,
fugidios no vinagre,sangue estagnado,Rio Tigre triste curvado,
chicoteado em seu estuário,santuário com suas veias expostas lázaras ,
tocadas pela luz vermelha do sol em fúria
transmutando-se em neon azul e em pavão-pavio aceso nas trincheiras,
suas penas orgulhosas e oleosas caem na fronte
onde corpos são números fraudados,
prostituídos nas casamatas de Gomorra.
Páginas bíblicas arrancadas com a mandíbula de Cérbero.
O Rio cada vez mais vermelho não só pelos raios do sol
Mas, pelo sangue do mesmo.

QUANDO A FEBRE VEM

Eu tenho a necessidade,eu quero lhe dizer,o primeiro a te dizer,de dar os sinais,demonstrar os caminhos mais rarefeitos de uma vez por todas,destrinchar palavra por palavra só pra você saber quando a febre vem.E ela vem,descomedida voz,efervecente domínio de Vega,desespero lilás dos fogos-de-artifício que explodem raios opalescentes,flashes de dentro dos cílios do horizonte fremente,estandarte esfarrapado Don Quijote após tentar cravar sua lança no coração do monstro de hélices em sua vida-alucinação.Eu tenho a necessidade de cravar,de cravejar tua escadaria vermelha de jóias inesquecíveis,estilhaços de um espelho-cais onde há um túnel-do-tempo,onde a cabeça degolada pelo pêndulo de Vênus vence o percurso mais difícil ao se transformar em globo-raio.Um espectro no coração da tempestade,aspirado pelo labirinto-mandala,globo-da-morte nas mãos da sorte,o sangue corredor x no corredor polonês se espalha.
Eu tenho a necessidade de esculpir a rosa que sangra no céu,sustentada por nimbos-cariátides numa câmara azteca.

DOIS CORPOS SOB O HÁLITO DA VERDADE

As minúsculas portas de diamante
Se abrem sob nossos pequenos passos na Estrada de Golconda.
Eu vou te buscar de solas cortadas,
Retalhadas pelo imenso passo dado no espaço entre dois corpos.
As portas batentes,pássaros de vime,de cedro
Se retorcendo na luz das brasas acordadas,
Após séculos de sonambulismo,braços e pernas lavados pelas águas do Estige.
Outras águas,outros calcanhares descendo pela escada espiralada do redemoinho principal.
A dança dos covardes,da cova que arde,do fogo-fátuo que não se apaga,
Nem sob o eterno hálito da verdade que sempre cai por terra nas gélidas colinas.

AS LÂMINAS

Acariciar a pele fina do vidro,
Lembrança dos tratores brancos que acariciavam a pele do ar,
As lâminas,doces lâminas cruzando olhares,assustando terçóis e parabrisas,
Cortando fios de Ariadne,fios de prata,
Fios de bronze dos paraquedistas esquecidos no ventre da espera.
A dor dos domadores dos cavalos de mármore de cascos de moinho,
Triturando brumas apenas com a memória e a brilhante amnésia
Dos lugares jamais pisados pelos Centauros.
Enriquecido tesouro de saber sentir o arredio vento das hortaliças,
Abrindo e mostrando a claridade que toda dor esconde em suas dobras,
As dobras do universo.
As lâminas de Heráclito adormecem sobre nossos pés,
Sempre e sempre rastejam,placas tectônicas que sempre foram e jamais serão.
Salvadoras e traiçoeiras,monges que se desequilibram entre os seios de Samsara.

A ARTE DE DERRETER

É essencial derreter!

Deixar de reter a Via-Láctea presa no fundo de um telescópio narcisita
Que só se vê no espelho do mundo.
E penteia seus cabelos com seus próprios ossos pontiagudos
E luminosos arados pelo crânio campo incendiado dos sonhos,
Onde em cada ponta há uma lágrima secular,
Que sonha em se secar sob a luz da esmeralda partida,
Sob a metade do corpo de Tiamat.

O céu azul-egípcio queima enquanto giro a chave-mestra do armário de venenos.
E sorvemos a fartos goles a essência um do outro,
Devastamos portos,pontes elevadiças se dissolvem com o beijo do fantasma da aurora,
Atrás dos olhos da loucura se perdem os documentos da realidade única.
Todas as datas imprecisas, janelas circulares de um templo árcade.
Catedrais insanas mirando longe o cristal cultuado que devora a imagem,o espírito da lua cega.

OS SONHOS EXTRAÑOS DE DINA SFAT

Vejo pessoas pela metade
Aqui é baixa a luminosidade
O telefone toca e ninguém atende
O trem escorre pela janela
E entra em meus ouvidos tão de repente

Alguém escuta os ruídos
E eles decifram movimentos
E tudo está muito tranquilo
Ninguém ouve,vê ou sente
A avalanche que esconde os trilhos em minha mente

Vejo Dina fazendo Hedda Gabler
No hotel ouvindo os sinos batendo
Contra a parede que não tinha ouvidos
Apenas a sombra de um revolver escondido

Alguém escolhe as palavras
Rasgando o ventre do vento vespertino
Trazendo as vísceras até a sala
Enquanto Dina decora sua fala
Hedda Gabler encontra seu destino

CALENDA GREGA

longe...o silencioso ser se forma em nuvens ardentes,
onde mergulham-se os tentáculos escorregadios do tempo,
dama em constante agonia branca.

vem o sol transmutando-se em colossal candelabro,
derramando suas entranhas azuis,
formando novos circos lunares.

um outro ser aquático,disforme vem correndo gelatinosamente
e abrasa todos os barcos desavisados,olhares hialóideos
trazendo a certeza de que estamos em lugar algum.

hoje nunca foi dia 31.