sábado, 17 de janeiro de 2009

FOSSA DAS MARIANAS

Já respirei os vapores que vem das profundezas da Terra,
Já fui sugado pela Fossa das Marianas e estou aqui, embora não pareça.
Já andei por um estreito labirinto de lâminas,
Já fui arrancado de mim mesmo e jogado na masmorra da erraticidade tantas vezes
E nem me lembro ao certo como saí.
Se abri um interstício de dentro do ar,
Se fui vomitado pelas nuvens que viviam nauseabundas
Ou se nasci de novo do maior susto que poderiam dar em um sonâmbulo
Que atravessava a ponte mais alta e estreita
Em alguma aldeia entre montanhas íngremes
De onde os gritos são ouvidos só muitos anos depois.

E é ali onde eles não repousam,
Ali onde o vento é chamado intruso,
Ali onde o caos é mãe e amamenta constantemente com seu líquido delirante
Os que caíram no sono daquele vale esquecido
Até mesmo pela contagem humana das horas,
Onde o sol é ídolo imaginário,
Onde janelas só servem para ensaio de guilhotina,
Ali onde os cães farejam mastros para o estandarte da loucura,
Ali onde eles são cravados para deleite de alguém
Longe onde todos são reis de sua insana idade média.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

VISLUMBRES

É quase imperceptível a força estática da mão fina que toca a xícara
como se bicasse o tronco de uma árvore adormecida na bruma da manhã,
um planeta-dervixe que gira em seu próprio eixo em colóquio
com aquele que vive acima das sete camadas,
uma nuvem de morfina que desce as veias da cidade ,
o imperador que suavemente toma sua última taça
e caminha para dentro do lago,
adentrando o vislumbre de uma garça
que na verdade é uma sala branca
dentro de um nenúfar nascido da dúvida
do soldado que persegue a lua
com sua rede de caçar borboletas
e aparece Angkor Wat ou Tirgu-Jiu á sua frente
e é essa a arte de encontrar sem esperar coisas valiosas ou admiráveis.
Uma cidade perdida ou proibida com suas cúpulas prata cobertas parcialmente por líquem,
uma cortina de cor de absinto onde certamente alguém toma sua forma
e possui levemente seu tecido sorvendo-o ,
onde repousa um reino-rio celifluente
e ele derrama sua paisagem,
sua lavanderia indonésia
pelo quarto onde dorme uma estátua do Ceilão.

QUANDO AVISTAM TORNADOS

Ouço nossas casas gritarem
Quando avistam tornados.
Anjos com asas de espiral,
Em velocidade descomunal.

Devastando a cidade
Com suas bençãos disfarçadas
De calamidade
E o céu então se parece com o nada

Trazendo em cada volta,desejos de ordem maior,
Sonhos inconfessáveis,seu olho em M.R.O.

Abraça nossa visão indefesa
E logo somos arremessados
Sobre a mesma mesa
Futuro,presente e passado

Se revezam num discurso sobre qual sombra estamos
O que os astros nos dizem enquanto flutuamos

AUTO-RETRATO INTERIOR

Cristal-quartzo,
Goteja
No pulso-pátio.
Miro o infinito,não mais congelo o espírito.
Os vapores dos gêisers escorre
Pelos flancos dos sobrados
Em silenciosos lençóis,estratos.

Vejo,ouço rouco,osso louco,oco corro,oxímoro
Pela boca,pelos ecos aos poucos e descubro o segredo da vida.
A primavera sorrindo parabrisas,
A serpente de 9 cabeças
No jardim das sobrancelhas.

Onde sombras se refugiam nos lápis azuis.(-Olha o Tigre!).
O sintético alarde,que invade mundos e fundos,
As galerias,memorabílias atrás do céu lúcido.
O olho,o outro,
Alas ardentes do Palácio Ideal
Inundadas pelo ruflar,agudo,pontiagudo e grave.
Um pássaro de plumas pluviais,vias transcendentais
À se perder de vista,
Pousa na vértebra colossal,colina primordial,abrasível e abissal.

Sorvo o leite das tetas atlânticas,pradarias
Da mãe de todas as angústias,um riso branco,
Sumidouro dos radares.
A Via-Láctea transbordou as margens.
Receio de perder o espaço conquistado
À duras penas capitais.

O que se cala é o que reverbera
Em rumor brando pela estratosfera,
Rugidos de animais xamânicos
Em espelhos sensíveis à luz.
Autos-retratos interiores
No parapeito,nuvens ciceroneiam,rodeiam
Círculos concêntricos recuados,
Gigante tombado
Por rompantes liliputianos.
Elefante sacrificado
Pelo marfim,ao deus do mercado do Cairo.

sábado, 3 de janeiro de 2009

TURISMO ACIDENTAL

E eles escalam o Everest
com um sorriso tártaro,
a grande geleira sem nenhuma graça
os cobre de beijos de cristal.
Tão indolor e implacável
ela se desmancha,
a rosa da avalanche repira
mesmo sob a ira do inferno branco.
O santo sudário tibetano se estende sobre os corpos dos amantes
Em sua aventura dentro das nuvens.
E do alto da criatura de gelo,
do abominável titã sem sangue,nem amor,
eles se jogam.
Lançam lancinates gritos
que rasgam o ar
e estremecem os ídolos mais próximos,
dando vida à rochas inexatas
e corações rosetanos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O DESAPARECIMENTO DAS MÃOS

Meus lábios descem até os seus,como epifania.
Coruchéu que cansou de ver o Coliseu
Do alto de um arranha-céu e desejou ser corroído por Cronos
E ser jogado aos leões da finitude carnal,
Ser devorado pelos ponteiros insaciáveis
Ao tocar tua chave-mestra e girar
A roda-gigante em chamas que se desprende do teu crânio
E transforma minha cidade,na cidade do sol,Heliópolis.
Tão agridoce tua secreta secreção
E o desaparecimento de minhas mãos,
Meus dedos leves levam as jóias do teu templo artemíseo.
De manhã,apenas as brasas podem serem vistas
No lugar onde haviam cultos diários
Aos teus 21 seios outrora intactos.

SNOWBLIND KILIMANJARO

As neves eternas se foram do topo do Kilimanjaro.
Se foram as vendas do executado recorrente
No Hotel da Loucura Dramática,
Em um dos quartos vertiginosos,
Dentro do espelho do Dióscuro,
O olho de David Bowie perdido num assalto.
O homem que caiu na terra
Acertado por um pirulito não identificado.
A moeda de ouro no vão da face de Borges
É o losango de esmeralda na fronte de Lúcifer,
O menino-sem-olhos snowblind.

HOSPÍCIOS E TRANSATLÂNTICOS

Um navio esquizofrênico no céu
Pergunta as horas às nuvens mais dispersas
No pátio onde são desprezadas
Por cavaleiros inexistentes
Enquanto Salustre
Com suas órbitas vazias
Guarda faróis invisíveis
E avista terra firme
Em plena calentura
Clarabóias voltadas pro alto,
Telescópios pra Aldebaran,
Astrais matilhas,austrais escotilhas,
Clareiras nebulosas,
Estreitos interstícios
Por onde os lagartos estelares passam
No solstício de verão
Ao meio-dia.

Homem ao mar da loucura
E a serenidade acena lá no cais,
Nunca mais,nunca mais.

NOSSOS DISFARCES

Estico tua pele,
teu disfarce,
teu vestido encarnado
sob o magma esfriado,
tua morte solar
enquanto investigo, instigo,
mastigo tua alma
de lepidóptero machado,
lavadas, simétricas asas
dissecadas por Zéfriro,
estandarte do êxtase,
do extremo desregramento,
trêmula têmpora,
sob a benção supersônica,
espalhada pelo chão craquelado
do anfiteatro,
esfumaçante galeão de pedra,
suspenso cérebro náufrago
no quarto royal dos opiáceos.

DESASTRO

Retorço a chave central e vejo o que me atrai além do abismo.
As asas perdidas para sempre são ondas incandescentes de opala
Que se reviram dentro de sua própria memória oceânica e bélica.
Quantos encouraçados em seu estômago, morada das almas?
O palácio surge no meio do deserto em minha fala concentrada
Em hipnótica reverência ao sol que arranha a testa e rasga
As galerias subterrâneas em minha mente-cidade caótica.
Aqueodutos escondidos deixam suas pernas-vórtices, parabólicas
Dispararem contra a opiniâo pública se alimentando do ventre das mariposas ensandecidas.
O gato lunar põe suas garras na atmosfera da metrópole no Aquário
E quase derruba o vidro numa alusão ao filho de Hélio, o desastro

RICOCHETES - Scenario 2

A serenidade é oblíqua,como um dente inciso na boca pintada de preto e cobre,brilhando um planeta desconhecido logo ali em frente,onde as máscaras são endereçadas para o cadáver sem alma,longe limpando sua roupa de astronauta,catando genocídios com apenas uma lágrima e um colher de sal na sua cabana de férias,de gesso e água-viva,ponta de asa angelical e gélida,que passa a queimar quando é tocada pelos raios de um nada ingênuo cupido solar,seus olhos brilham mesmo no escuro constante de seu mundo extra-sensorial,vendo o inesperado caminhando sobre a grama,sobre o centeio,sobre a lâmina que nunca dorme,que espera para dar o bote e ela sabe quando não há mais dia nem noite,quando não se dividem os hemisférios da mente,quando se descobre que bem e mal são gêmeos siameses,quando o paradoxo é sugado pela perplexidade de ver que as diferenças foram embora com o medo do próprio si.

RICOCHETES - Scenario 1

Ciclopes em seus gigantes velociclos,supercílios dentro da nuvem ardente,olhos abertos para a santa inquisição enquanto a lona desce cascata palavra líquida,racha a língua da montanha chinesa com suas atrações e abismos,narcisos-dos-prados e dentes-de-leão mergulham e rugem para dentro do olho do Nilo,o Egito no ciclo M.R.O.E ele tenta fugir pelas escadas assassinas do templo com seu punho-corredor esmurrando ao longe a face do sol e ele cospe seus dentes de ouro roubados do túmulo de um antigo rico crepúsculo.Nasce um novo sorriso,artefato de um novo eflúvio,locomotivo e leitmotiv,kinotrem rugindo e rasgando o céu,proporcionando aos espectadores e espectros espetáculos onde a raiva e a melancolia se fundem,eclipsando as ruínas de um conhecido sítio arqueológico.A noite vence seus rivais com um lastro da memória dos doze assaltos e ela vem reinando,suas veias expostas em lentes e lâminas de ardósia .Facteur Cheval risca o fósforo-olho como um édipo carteiro e entrega suas visões e paraquedas pelo vão do dia de imprecisa efemêride.Fecham-se então as cortinas do circo lunar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

SEM LEGENDAS

tenho

um segredo guardado

há muito tempo

se enferrujando

num jogo subterrâneo

corações são kinotrens

famintas cascavéis de aço

se enrolando pelos trilhos

sem ninguém perceber

sentimentos passageiros

afrouxando suas gravatas

sorrateiramente

se juntando aos ratos

nesse jogo subterrâneo

sem perceber

e descem

em suas respectivas estações

olham para seus relógios

plenas satisfações

de estarem na hora certa

no matadouro

e vender suas imaginações

a preço de ouro

Eu queimo por dentro

mesmo que você

nem queira saber

Eu piro,

tenho uma pira

a consumir meus nervos

mesmo que você

nem queira ver

está passando hoje

no Cine Nero

Roma está a arder

se você quisesse assistir

o filme da minha alma

o sangue de um poeta

você poderia me entender

sem legendas