domingo, 8 de fevereiro de 2009

OS ANOS VERDES

Desconexo
ouço em conchas o desabrochar dos cavalos-lírios,
girando enlouquecidos, com lamparinas lânguidas
em suas árcades retinas,
pavios bailarinos, maçãs com espartilhos dançam no eixo da terra
enquanto caminho tuaregue
arrastando barcos
pelo deserto da incerteza em meus anos verdes.
Penetro pela água quente agora outros planetas desconhecidos,
onde os pés são severamente pulverizados ao primeiro contato
pelos cataclismas naturais
e os corações esmagados pela gravidade sem lei,
moscas neste mundo e luas inocentes
retiradas das unhas de mercúrio,
transformando dias
em máscaras do tempo,
que um dia serão retiradas também.

Haverá um vão
onde se mostrarão todos os minutos
como sulcos em sua visagem ,que abarca todos os acontecimentos
desde o início de sua contagem
e quem a iniciou,quem ouviu o estalo da grande explosão
em sua casa, em uma das asas de Fênix na colina primordial
foi o primeiro osso lançado à cérbero
e quem o lançou deu início à morte
e seu ritual.

DESIDERATA

Áspera espera por quem,pelo o que?
A cada minuto ela se torna mais angustiante e mais longa.
Dias fora do calendário maya,fora de qualquer calendário,
Dias que só existem aqui.
As paredes se congelam,se liquefazem,se evaporam,voltam a ser gelo,
Gelo inóspito,gelo insólito.
A esperança na orla acorrentada,de alguma praia em uma estrela já esfriada.
Algum ventre estranho envolve arranha-céus metálicos,aracnídeas metrópoles
Subindo colinas íngremes como a face sul do Aconcágua.
Acaricando tetricamente o rosto perplexo
de um anjo refém de sua própria vontade negada
Pela sombra da integridade.
Suas pernas delgadas e quebradiças esperam o sopro que venha estilhaçar
A mentira de sua estrutura glacial,num beco refratário de cristais.
O frio do espaço e o desejo sideral de ver além pela penumbra,
pela gelosia da janela anacrônica
O grande vômito de Galactus,devolvendo os olhos hialóideos aos exploradores dos astros
Que sofrem de horror ao vazio e sonham com novas explosões de cápsulas
trazendo à tona flores supernovas ao jardim negro de Okeanos
.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

FELTRO

Certa vez me disseram
que a porta do inferno era feita de feltro.
Certa vez me disseram
que as angústias do peixe-elétrico vem de sua alta-tensão
e seu desejo de encontrar algum pirotécnico
que descubra sua vocação de fogo-de-artifício.
E o tire dos domínios marinhos
e das lembranças de assassinatos despropositais,
como Diana,a caçadora
e propositais como Erik,o Vermelho.
Certa vez me disseram que haviam duas portas,
uma de chifre outra de marfim
e eu teria que escolher por qual eu haveria de entrar.
Eu fui por aquela
onde eu perderia todos os meus reflexos,da noite e do dia,
por aquela em que são mostradas
as horas em sentido anti-horário e o café-da-manhã
grita em plena madrugada
que os lobos estão mais baixos do que nunca,
com sua pele
que revela ornamentos da porta do inferno
com seu revestimeto de feltro
e vãos licantrópicos.

OS DESPERTAR DA ROSA CÁLIDA E ACÉFALA OU A SINOPSE DO DIES IRAE

Suas hélices levantam
voos circunflexos
na medida do impossível
por águas brancas,
áreas em que os radares
sofrem lapsos irrecuperáveis,
onde ficam presos
num pesadelo
que acontece recorrentemente 

na Rua da Traição.
Ninguém os vê nas zonas erógenas,
julgadas desaparecidas,
cidades devastadas pela peste,
pela maldição
dos que comem asnos bêbados conservados
em potes de lágrimas de sangue feudal.
Ninguém os vê dançando flamenco grego
no sistema nervoso central,
golpeando o destino,
condenando-o ao leng tché
e os cavalos rindo do dia caído
aos seus cascos de barco aveludado
de crinas pelas escarpas crescentes e ingênuas
dos que desviam propositalmente de seus designos ígneos
.

A MÃO ESQUERDA

Um tango repousa como animal imperceptível
entre o fio da navalha e o trampolim.
Lá embaixo gritam as avenidas insaciavelmente:-Pule!Pule!
Tesouras e comprimidos em um prato da balança e o coração,
iguaria de Amitt na outra.
E inalar o músculo do amor se torna uma tarefa imprópria.
Imagino as pessoas olhando pro alto,
onde já não se enxerga mais do que um risco
entre a constelação de Órion e a do Centauro.
Eles os famintos lá embaixo,
com apetite diabólico nos olhos cadafalsos,
torcem pela queda dos amantes,
se equilibrando nas estrelas ainda ocultas para os astrônomos.
Mas,Cocteau já disse que a vida é uma queda horizontal.
E eles vão corroendo por dentro
a estrutura que se pende,
a haste de um helianto,coletor de pólvora ao invés de pólem.
E se veem cegados
pelo fruto que apodrece em suas têmporas.
A polpa dourada no pomar das Hésperides
espera o dia de ser colhida
pela mão esquerda,
onde se vê os lábios do que não se pronuncia.
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