A véspera nunca vai embora,
mesmo que seja já silêncio na morada dos tigres e dos besouros.
O vento não está tão zangado,
ele não tem mais a fúria necessária no olhar
mas, ele sabe ser implacável.
Ele retira a véspera de cena e a apunhala atrás das cortinas.
Ela agoniza beijando seus pés,
ela dança freneticamente,
espasmos e chicotes sensoriais,
tirando fotografias em pleno temporal.
Alguém chuta o horizonte flamejante
nos cabelos da virgem nos vitrais de alguém.
A véspera sangra,
o novo dia lhe morde fortemente a testa,
buscando uma saída falsa
para o cortejo das enguias na bacia das almas.
A brutalidade da cor na tez dos sacrificados e seus terços
engolidos pelo buraco do beijo negro.
A véspera vai ao sanatório
após riscar seu corpo com estrelas pontiagudas e afiadas,
procurando sinais sagrados num bondage
onde as cordas são os minutos que faltam
para o impossível delírio.
Ninguém vê seu jovem corpo voltado para a mesquita
num misto de adoração e perplexidade.
Na câmara azteca a véspera se retorce,
voltando a cena muda que se comunica
através de postais e colagens,
oráculos de um insólito amanhecer.
A véspera reconhece a Ocasião,
conversando com o momento inesperado
tentando convencê-la a se despir
antes que anoiteça mais uma vez.
sábado, 28 de março de 2009
O SEIO DO SEGREDO
Era uma planta carnívora
que de tão obscura
me fechava
os olhos mais nítidos
com nenhuma palavra
só a aproximação
já catalizava
as armadilhas mais pantanosas,
queria meu pé,meu coração,
todas as instituições
para sentimentos rejeitados
que haviam em minha cidade sem sol.
E eu vi você
arrastando várias cidades,
sorvendo ansiedades,tufão
e aí veio
a claridade só.
Holocausto,um hausto cáustico,fausto,
mefistófeles,voragens devoram
todos os significados
deixando
apenas insignificantes.
Projéteis vermelhos
rasgam o espaço
entre dois corpos na penumbra,
o desejo abre os olhos abismais.
Sorvi seus humores
enquanto você entornava
sua nudez egípcia
pelos meus lábios etruscos,
vasos quebrados,
que você colou de volta
pedaço por pedaço,
o esconderijo de minha revolta hedonista,
novamente intacto.
que de tão obscura
me fechava
os olhos mais nítidos
com nenhuma palavra
só a aproximação
já catalizava
as armadilhas mais pantanosas,
queria meu pé,meu coração,
todas as instituições
para sentimentos rejeitados
que haviam em minha cidade sem sol.
E eu vi você
arrastando várias cidades,
sorvendo ansiedades,tufão
e aí veio
a claridade só.
Holocausto,um hausto cáustico,fausto,
mefistófeles,voragens devoram
todos os significados
deixando
apenas insignificantes.
Projéteis vermelhos
rasgam o espaço
entre dois corpos na penumbra,
o desejo abre os olhos abismais.
Sorvi seus humores
enquanto você entornava
sua nudez egípcia
pelos meus lábios etruscos,
vasos quebrados,
que você colou de volta
pedaço por pedaço,
o esconderijo de minha revolta hedonista,
novamente intacto.
sexta-feira, 27 de março de 2009
A ATLANTE
Ei você,que carregas o mundo,
Me dê alguns continentes!
Pode ser aquele com mais desnutridos,
Pode ser aquele com mais suicidas.
Aquele com os monumentos mais pesados
de cargas e espectros.
O que tem o Menir do Pavor
E outras gigantescas estátuas
Sob ameaçadoras nuvens
Desde o início dos tempos.
Início da tempestade rubicunda.
O que tem mais arranha-céus
estupra-céus.
Estupra belas bucetas de nuvens
E elas gozam chuva torta
chuva caos
chuva áspera
chuva médula-óssea
chuva medo de isopor
chuva dor e sol
chuva vinho
chuva vinagre
chuva dor
chuva dor
chuva dor.
Me dê alguns continentes!
Pode ser aquele com mais desnutridos,
Pode ser aquele com mais suicidas.
Aquele com os monumentos mais pesados
de cargas e espectros.
O que tem o Menir do Pavor
E outras gigantescas estátuas
Sob ameaçadoras nuvens
Desde o início dos tempos.
Início da tempestade rubicunda.
O que tem mais arranha-céus
estupra-céus.
Estupra belas bucetas de nuvens
E elas gozam chuva torta
chuva caos
chuva áspera
chuva médula-óssea
chuva medo de isopor
chuva dor e sol
chuva vinho
chuva vinagre
chuva dor
chuva dor
chuva dor.
O CORREDOR NÚ
Entre atropelos e vozes,vou adentrando teus apelos,
me encosto em tua aparição,
serpente dinâmica,flor tangerina e embevecido me acho,me perco
enlaçado por teus tentáculos,ricos em pedras,ágatas magnéticas
e minhas escamas vão se descascando sob o sol de Júpiter.
Não tenho tempo nesse corredor,onde as luzes são fantasmas num cinema sem cortes.
Me encaixo em uma cadeira dos sonhos,imagino cenas de outros festivais,
gente que já saiu em plena projeção,gente que entrou na tela e jamais saiu,
que presenciou incêndios naquele lugar público.
Um noite longa sem colibris se aproxima me dá um beijo de boa sorte
e parte e em dezessete raios, fulge.
Estou no deserto do meu ser,no Ártico.
Uma flor do àrtico sem escamas,sem entardecer nas Tordesilhas,
a calentura arde na fronte,abrem-se portos e vejo o Colosso cair no mar.
Me afogo em brasa enquanto a boca mole de alguma sombra cai do pé de uma árvore,
onde tantos já perderam seus pescoços e me deito.
Perambulo pelo parque à caça de algum terçol que me livre do engano da luz imediata.
Ela sempre custa chegar.
Vejo o silêncio chegar e me oferecer doces gritos que só eu ouço,
um buquê de clematites que é um reino distante e que tenho nas mãos.
A parede se descongela enquanto corro nú pelo teu corredor,
as estalagmites e estactites tem sabor de estigmas.
Abro um livro e encontro o nariz de Cleopatra.
Vou até o mercado de pulgas e o vendo.
Ganho um chapéu vermelho cheio de vertigens.
Vomito estrelas e elas formam nebulosas.
Recupero minhas escamas e abraço o sal.
Uma melodia invade meus pés vinda de um daguerreotipo
que ilustra o chão em sépia.
São seus dentes que me acordam,me recordam de que chão não há então.
O haxixe percorre meu sangue enquanto percorro,
me perco e corro de mim mesmo
mas, o meu eu,que jamais foge, sempre me surpreende nesse jardim.
O verde é agitado,um leque nas mãos de alguém,um terremoto,
rodas descem,se desprendem do crânio e vão as compras
e evaporam-se todos os turbilhões,algodões elefantes em fila indiana sobre os céus de Calcutá.
me encosto em tua aparição,
serpente dinâmica,flor tangerina e embevecido me acho,me perco
enlaçado por teus tentáculos,ricos em pedras,ágatas magnéticas
e minhas escamas vão se descascando sob o sol de Júpiter.
Não tenho tempo nesse corredor,onde as luzes são fantasmas num cinema sem cortes.
Me encaixo em uma cadeira dos sonhos,imagino cenas de outros festivais,
gente que já saiu em plena projeção,gente que entrou na tela e jamais saiu,
que presenciou incêndios naquele lugar público.
Um noite longa sem colibris se aproxima me dá um beijo de boa sorte
e parte e em dezessete raios, fulge.
Estou no deserto do meu ser,no Ártico.
Uma flor do àrtico sem escamas,sem entardecer nas Tordesilhas,
a calentura arde na fronte,abrem-se portos e vejo o Colosso cair no mar.
Me afogo em brasa enquanto a boca mole de alguma sombra cai do pé de uma árvore,
onde tantos já perderam seus pescoços e me deito.
Perambulo pelo parque à caça de algum terçol que me livre do engano da luz imediata.
Ela sempre custa chegar.
Vejo o silêncio chegar e me oferecer doces gritos que só eu ouço,
um buquê de clematites que é um reino distante e que tenho nas mãos.
A parede se descongela enquanto corro nú pelo teu corredor,
as estalagmites e estactites tem sabor de estigmas.
Abro um livro e encontro o nariz de Cleopatra.
Vou até o mercado de pulgas e o vendo.
Ganho um chapéu vermelho cheio de vertigens.
Vomito estrelas e elas formam nebulosas.
Recupero minhas escamas e abraço o sal.
Uma melodia invade meus pés vinda de um daguerreotipo
que ilustra o chão em sépia.
São seus dentes que me acordam,me recordam de que chão não há então.
O haxixe percorre meu sangue enquanto percorro,
me perco e corro de mim mesmo
mas, o meu eu,que jamais foge, sempre me surpreende nesse jardim.
O verde é agitado,um leque nas mãos de alguém,um terremoto,
rodas descem,se desprendem do crânio e vão as compras
e evaporam-se todos os turbilhões,algodões elefantes em fila indiana sobre os céus de Calcutá.
domingo, 15 de março de 2009
ROTEIRO ONÍRICO DA VILA ITORORÓ
Um vislumbre.
em algum dos vórtices ela se encontrava presa
até se derramar da fonte de dentro do ar
e ser forjada diante de meus olhos,
as esculturas que sobraram,
leões despedaçados
pelo grito em alto-volume
do descaso e da devastação natural dos sentidos.
ela,carcassa,navio fantasma
nos escombros da memória,
acariciando as pedras
e o terreno baldio
traz à tona suas colunas etruscas,
suas pernas
com seus mitos gregos nas laterais,
vermes subindo a encosta de uma montanha
até beijar o sol invicto.
foi no dia da lembrança que eu a vi,
pequeno labirinto de Cnossos.
perdido no eldorado dos pauis,
no lodo infestado de carros,
lâminas de barbear
e sonâmbulos tigres e táxis
sob uma chuva imóvel e oblíqua
cortando os estupra-céus.
um casco encalhado
às margens da loucura
por onde trespassam os corredores ávidos
de ondas,dragas
que possam levá-lo às últimas consequências.
os portões derretidos pela chama do silêncio
que borda a boca dos desfiladeiros
sem eco.
então eu atravesso,desço as escadas do desencontro,
sem degraus,apenas suntuosa neblina
que inebria e transfigura a paisagem
dos sonhos mais inflexíveis
e vejo os mastros sem suas vendas
após o fuzilamento dos carros
e alguém assopra as velas num canto do universo
e se engasga com os vapores escondidos
dentro do bolso do ciclope
que é o Templo de Delfos.
o desregramento é inevitável
ao mirar o degelo daquele iceberg de bronze
ruminando ao longe
com suas cascas douradas de biga do auriga
que chega e entrega sua prisioneira Aurora Boreal
que no limiar de toda manhã regurgita
diante do meu imóvel metafísico
essa estranha casa surrealista
no beco do esquecimento.
Eu vivo na Vila Itororó e ela vive dentro de mim.
um leviatã corroído pela mais vasta draga
que assolou os céus de uma bela vista,
dando a mais bela e inesperada distorção
pelo caminho mais secreto e aberto.
a secreção das palavras menos proferidas
pelas sete mil bocas aos sete ventos
e ela corroe os sentidos por onde passa
besouro e bezerro de ouro
cravada jóia no crânio da metrópole babilônica.
lá vi Gradiva,seu leve andar de lança-chamas,
Joelma e Joana também passam por lá,
musas incendiárias de Paul Delvaux
que me abraçam,me abrasam,
sonho recheado de fantasmas.
Palácio Ideal de um luso Cheval,
a grande caixa de fósforos
onde são riscadas nossa órbitas
que apresentam-se vazias
mas,que sempre guardam faróis invisíveis.
sábado, 14 de março de 2009
LETÍCIA
Sinto e simultaneamente vejo
de relance como um relâmpago
alguém levando minha cabeça,
pelo Tâmisa, Estige ou Amazonas,
até perder o fôlego,
talvez para um mercado submerso
vou sendo levado verso após verso.
Não sou prêmio que eu saiba.
Sem bandeja pois,não vejo Salomé,
nem ouço sua risada.
Nem me sinto João Batista ou outro santo qualquer.
Não sinto seu perfume de princesa
mas,sei que ela dança para que eu me esqueça
e volte a ser criança com certeza.
Todos os meus membros cansados da última vida.
Nem bem me lembro como encontrei a saída.
Minha mente levemente para baixo,
para mergulhar meus cabelos,ouvidos e outros labirintos íntimos.
Para regar meus vasos sanguíneos
no meu parapeito onde um sonâmbulo enamora a lua
e numera as estrelas
mas,no fundo ele sabe
que nenhuma realmente é sua.
Para que meu minotauro,meu irmão,meu filho
e outros monstros arquetípicos
possam descobrir o brilho das águas
mais tranquilas do que as do Nilo,
mais lívidas do que as do Ganges,
mais profundas do que o Amazonas
e onde se banha Letícia.
de relance como um relâmpago
alguém levando minha cabeça,
pelo Tâmisa, Estige ou Amazonas,
até perder o fôlego,
talvez para um mercado submerso
vou sendo levado verso após verso.
Não sou prêmio que eu saiba.
Sem bandeja pois,não vejo Salomé,
nem ouço sua risada.
Nem me sinto João Batista ou outro santo qualquer.
Não sinto seu perfume de princesa
mas,sei que ela dança para que eu me esqueça
e volte a ser criança com certeza.
Todos os meus membros cansados da última vida.
Nem bem me lembro como encontrei a saída.
Minha mente levemente para baixo,
para mergulhar meus cabelos,ouvidos e outros labirintos íntimos.
Para regar meus vasos sanguíneos
no meu parapeito onde um sonâmbulo enamora a lua
e numera as estrelas
mas,no fundo ele sabe
que nenhuma realmente é sua.
Para que meu minotauro,meu irmão,meu filho
e outros monstros arquetípicos
possam descobrir o brilho das águas
mais tranquilas do que as do Nilo,
mais lívidas do que as do Ganges,
mais profundas do que o Amazonas
e onde se banha Letícia.
sábado, 7 de março de 2009
ODE AOS KRAFT
sem sombra de dúvidas
duas vidas
são apenas
nuvens ardentes.
deuses insertos,
impetulantes insetos
repousam nas pétalas
de um bouquet nuclear
que sonha
ininterruptamente
ao leste de Nagasaki
há duzentos anos.
atrás de suas lentes
cravam seus equipamentos,
suas pernas,articulações
e sua mente
zen os une,
zune sobre o Unzen
e o tempo nunca
é o tempo sempre.
lenta,escura,imensa
busca pelo brusco
os tornam monges
e ao longe
tão evidente
a sombra se forma
no estômago do Titã,
à espera do Satori
koans ecoam,
placas implacáveis,
escoam
à duzentos kilômetros
por hora.
a grande gargalhada,
o sarcasmo
da espada de vapor
sorriu seus pulsos,
cessou suas
respirações e obsessões
com fluxos piroclásticos
em minutos.
sopro de ar quente
adentra
a porta dos pulmões,
o veneno de Magritte
transferiu seus sentidos
definitivamente
e sua mente
zen os une
zune sob o Unzen
em unísono
e o tempo sempre
é o tempo nunca.
sonhos ardentes
chegam
ao Monte Olympia,
num xeque-Marte,
levados
pela Morte
na sequência final.
o templário
não foge do lance,
o tempo fogo foge,
vê sua mão
movendo
e desliza
a rainha de enxôfre
pelo tabuleiro de nervos
que logo entorna
suas peças flutuantes.
Kurosawa e Bergman
selam o sétimo selo samurai
refilmado
em 3 de junho de 1991.
À Maurice & Kátia Kraft,
vulcanologistas fotógrafos
que foram surpreendidos
pelo despertar do Monte Unzen,
na península de Shimabara
In Memorium.
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